
Introdução à visão católica da Sagrada Escritura como Palavra de Deus inspirada e inerrante, inseparável de Cristo, o Verbo encarnado. Apresenta sua autoridade salvífica, os sentidos literal e espirituais da Bíblia e os critérios da Igreja para sua interpretação em unidade com a Tradição e o Magistério.
Sumário
Você está se aproximando da “palavra de Deus”. Este é o título que os cristãos mais comumente dão à Bíblia, e a expressão é rica em significado. Esse também é o título dado à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Deus Filho. Pois Jesus Cristo se fez carne para nossa salvação, e “o seu nome chama-se Verbo de Deus” (Ap 19,13; cf. Jo 1,14).
A palavra de Deus é a Escritura. O Verbo de Deus é Jesus. Essa estreita associação entre a palavra escrita de Deus e Seu Verbo Encarnado é intencional e tem sido o costume da Igreja desde a primeira geração. “Toda a Escritura divina é um único livro. Este livro único é Cristo, já que toda Escritura divina fala de Cristo, e toda Escritura divina se cumpre em Cristo”1 (CIC 134). Isso não significa que as Escrituras sejam divinas da mesma forma que Jesus é divino. Elas são, antes, divinamente inspiradas2 e, como tal, são únicas na literatura mundial, assim como a Encarnação do Verbo eterno é única na história humana.
Ainda assim, podemos dizer que a palavra inspirada se assemelha ao Verbo encarnado em vários aspectos importantes. Jesus Cristo é o Verbo de Deus encarnado. Em sua humanidade, Ele é como nós em todas as coisas, exceto no pecado. Como obra do homem, a Bíblia é como qualquer outro livro, exceto no erro. Tanto Cristo quanto a Escritura, diz o Concílio Vaticano II, são dados “para a nossa salvação” (Dei Verbum 11), e ambos nos oferecem a revelação definitiva de Deus sobre si mesmo. Não podemos, portanto, conceber um sem o outro: a Bíblia sem Jesus, ou Jesus sem a Bíblia. Cada um é a chave interpretativa do outro.
E, porque Cristo é o sujeito de todas as Escrituras, São Jerônimo insiste:
Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo3

Inspiração e Inerrância da Sagrada Escritura
A Igreja Católica faz afirmações poderosas sobre a Bíblia, e nossa aceitação dessas afirmações é essencial se quisermos ler as Escrituras e aplicá-las às nossas vidas conforme a Igreja pretende. Portanto, não basta apenas acenar com a cabeça para palavras como “inspirada”, “única” ou “inerrante”. Precisamos entender o que a Igreja quer dizer com esses termos, e precisamos fazer desse entendimento algo próprio. Afinal, o que acreditamos sobre a Bíblia inevitavelmente influenciará a maneira como a lemos. A maneira como lemos a Bíblia, por sua vez, determinará o que “tiramos” de suas páginas sagradas.
Esses princípios são verdadeiros independentemente do que lemos: uma reportagem, um mandado de busca, um anúncio, um contracheque, uma receita médica, uma notificação de despejo. A forma (ou se) lemos essas coisas depende em grande parte de nossas ideias prévias sobre a confiabilidade e autoridade de suas fontes e do potencial que elas têm de afetar nossas vidas. Em alguns casos, não compreender a autoridade de um documento pode levar a consequências graves. Em outros, pode nos impedir de desfrutar recompensas que são justamente nossas. No caso da Bíblia, tanto as recompensas quanto as consequências envolvidas assumem um valor supremo.
O que a Igreja quer dizer, então, quando afirma as palavras de São Paulo: “Toda Escritura é inspirada por Deus” (2Tm 3,16)? Já que o termo “inspirada” nessa passagem pode ser traduzido como “soprada por Deus”4, isso significa que Deus soprou sua palavra nas Escrituras da Bíblia. Ele certamente empregou autores humanos nessa tarefa também, mas Ele não apenas os assistiu enquanto escreviam ou aprovou posteriormente o que haviam escrito.
Deus Espírito Santo é o autor principal da Escritura, enquanto os escritores humanos são autores instrumentais. Esses autores humanos escreveram livremente tudo, e somente aquilo que Deus quis: a palavra de Deus nas próprias palavras de Deus. Esse milagre de dupla autoria se estende a toda a Escritura e a cada uma de suas partes, de modo que tudo o que os autores humanos afirmam, Deus igualmente afirma através de suas palavras.
O princípio da inerrância bíblica segue logicamente desse princípio de autoria divina. Afinal, Deus não pode mentir, e Ele não pode cometer erros, não pode enganar e nem ser enganado. Como a Bíblia é divinamente inspirada, ela deve ser isenta de erro em tudo o que seus autores divino e humano afirmam ser verdadeiro. Isso significa que a inerrância bíblica é um mistério ainda mais amplo do que a infalibilidade, que nos garante que a Igreja sempre ensinará a verdade acerca da fé e da moral.
Claro, o manto da inerrância também cobre fé e moral, mas se estende ainda mais para garantir que todos os fatos e eventos da história da salvação sejam apresentados com exatidão para nós nas Escrituras.
A inerrância é a nossa garantia de que as palavras e ações de Deus encontradas na Bíblia são unificadas e verdadeiras, declarando com uma só voz as maravilhas de seu amor salvador. A garantia da inerrância não significa, porém, que a Bíblia seja uma enciclopédia de uso geral contendo informações sobre todos os campos do conhecimento. A Bíblia não é, por exemplo, um livro didático de ciências empíricas, e não deve ser tratada como tal. Quando os autores bíblicos relatam fatos da ordem natural, podemos ter certeza de que estão falando de maneira puramente descritiva e “fenomenológica”, de acordo com a forma como as coisas apareciam aos seus sentidos.
A Autoridade da Sagrada Escritura
Implícito nessas doutrinas está o desejo de Deus de se fazer conhecido ao mundo e de entrar em um relacionamento amoroso com cada homem, mulher e criança que Ele criou. Deus nos deu as Escrituras não apenas para nos informar ou motivar; mais do que tudo, Ele quer nos salvar. Esse propósito superior está presente em cada página da Bíblia, de fato, em cada palavra dela.
Para revelar-se, Deus usou aquilo que os teólogos chamam de “acomodação”. Às vezes o Senhor desce ao nosso nível para se comunicar por “condescendência” — isto é, Ele fala como os seres humanos falam, como se tivesse as mesmas paixões e fraquezas que nós (por exemplo, quando Deus diz que ficou “arrependido” de ter feito o homem em Gênesis 6,6). Outras vezes Ele se comunica por “elevação” — isto é, elevando palavras humanas com poder divino (por exemplo, através dos Profetas).
Os inúmeros exemplos de acomodação divina na Bíblia são uma expressão dos modos sábios e paternais de Deus. Pois um pai sensível pode falar com seus filhos tanto por condescendência, como em “linguagem de bebê”, quanto por elevação, elevando a compreensão da criança a um nível mais maduro.
A palavra de Deus é, portanto, salvadora, paternal e pessoal. Porque fala diretamente a nós, nunca devemos ser indiferentes ao seu conteúdo; afinal, a palavra de Deus é ao mesmo tempo objeto, causa e sustento da nossa fé. Ela é, de fato, um teste de nossa fé, pois vemos nas Escrituras somente aquilo que a fé nos dispõe a ver. Se acreditarmos no que a Igreja crê, veremos na Escritura a revelação salvadora, inerrante e de autoria divina do Pai. Se acreditarmos de outra forma, veremos um outro livro completamente diferente.
Esse teste se aplica não apenas aos fiéis em geral, mas também aos teólogos e à hierarquia da Igreja, e até mesmo ao Magistério. O Concílio Vaticano I enfatizou, em tempos recentes, que a Escritura deve ser “como que a alma da sagrada teologia” (Dei Verbum 24).
Ainda como Cardeal Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI ecoou esse poderoso ensinamento com suas próprias palavras, insistindo que “os teólogos normativos são os autores da Sagrada Escritura”. Ele nos lembrou que a Escritura e o ensinamento dogmático da Igreja estão intimamente ligados, a ponto de serem inseparáveis: “Dogma é, por definição, nada mais do que uma interpretação da Escritura”. Os dogmas definidos da nossa fé, então, encapsulam a interpretação infalível da Igreja sobre a Escritura, e a teologia é uma reflexão adicional sobre essa obra.
Os Sentidos da Sagrada Escritura
Porque a Bíblia tem tanto autores divinos quanto humanos, somos chamados a dominar um tipo diferente de leitura do que estamos acostumados. Primeiro, devemos ler a Sagrada Escritura de acordo com seu sentido literal, assim como lemos qualquer outra literatura humana. Nesse estágio inicial, esforçamo-nos para descobrir o significado das palavras e expressões usadas pelos escritores bíblicos, tal como eram entendidas em seu contexto original e por seus destinatários originais.
Isso significa, entre outras coisas, que não interpretamos tudo o que lemos de maneira “literalista”, como se a Escritura nunca falasse de modo figurado ou simbólico (ela frequentemente fala!). Ao contrário, nós a lemos segundo as regras que governam seus diferentes gêneros literários, dependendo se estamos lendo uma narrativa, um poema, uma carta, uma parábola ou uma visão apocalíptica.
A Igreja nos chama a ler os livros divinos desta maneira para garantir que compreendamos aquilo que os autores humanos estavam se esforçando para explicar ao povo de Deus. O sentido literal, porém, não é o único sentido da Escritura, já que também interpretamos suas páginas sagradas segundo os sentidos espirituais. Dessa forma, buscamos aquilo que o Espírito Santo está tentando nos dizer, indo até mesmo além do que os autores humanos conscientemente afirmaram.
Enquanto o sentido literal da Escritura descreve uma realidade histórica — um fato, preceito ou evento — os sentidos espirituais revelam mistérios mais profundos através dessas realidades históricas. O que a alma é para o corpo, os sentidos espirituais são para o literal. Você pode distingui-los; mas se tentar separá-los, a morte imediatamente ocorre. São Paulo foi o primeiro a insistir nisso e a advertir sobre suas consequências: “…[a] nossa capacidade vem de Deus, que nos tornou capazes de exercer o ministério da nova aliança, não da letra, mas do Espírito. Com efeito, a letra mata, mas o Espírito faz viver.” (2Cor 3,5-6).
A tradição católica reconhece três sentidos espirituais que se apoiam na fundação do sentido literal da Escritura (cf. CIC 115). (1) O primeiro é o sentido alegórico, que desvenda o significado espiritual e profético da história bíblica. Interpretações alegóricas revelam, assim, como pessoas, eventos e instituições da Escritura podem apontar além de si mesmas para mistérios maiores ainda por vir (AT) ou manifestar os frutos de mistérios já revelados (NT).
Os cristãos frequentemente leram o Antigo Testamento dessa forma para descobrir como o mistério de Cristo na Nova Aliança estava anteriormente escondido no Antigo e como o pleno significado da Antiga Aliança foi finalmente manifestado na Nova. O significado alegórico também está latente no Novo Testamento, especialmente na vida e nas ações de Jesus registradas nos Evangelhos. Porque Cristo é a Cabeça da Igreja e a fonte de sua vida espiritual, o que foi realizado em Cristo, a Cabeça, durante sua vida terrena, prefigura aquilo que Ele continuamente produz em seus membros pela graça. O sentido alegórico desenvolve a virtude da fé.
(2) O segundo é o sentido tropológico ou moral, que revela como as ações do povo de Deus no Antigo Testamento e a vida de Jesus no Novo Testamento nos impulsionam a formar hábitos virtuosos em nossas próprias vidas. Ele extrai da Escritura advertências contra o pecado e o vício, bem como inspirações para buscar a santidade e a pureza. O sentido moral tem como finalidade desenvolver a virtude da caridade.
(3) O terceiro é o sentido anagógico, que aponta para o alto, para a glória celestial. Ele nos mostra como inúmeros eventos na Bíblia prefiguram nossa união final com Deus na eternidade e como as coisas que são “vistas” na terra são figuras das coisas “invisíveis” no céu. Porque o sentido anagógico nos leva a contemplar o nosso destino, ele é destinado a desenvolver a virtude da esperança. Juntamente com o sentido literal, portanto, esses sentidos espirituais extraem a plenitude do que Deus deseja nos conceder por meio de sua Palavra e, como tal, constituem aquilo que a antiga tradição chamou de “sentido pleno” da Sagrada Escritura.
Tudo isso significa que as ações e eventos da Bíblia estão carregados de um significado além do que é imediatamente aparente ao leitor. Em essência, esse significado é Jesus Cristo e a salvação que Ele morreu para nos dar. Isso é especialmente verdadeiro nos livros do Novo Testamento, que proclamam Jesus explicitamente; mas também é verdadeiro no Antigo Testamento, que fala de Jesus de maneira mais oculta e simbólica.
Os autores humanos do Antigo Testamento nos disseram tudo o que foram capazes de dizer, mas não podiam discernir claramente o contorno de todos os eventos futuros enquanto estavam posicionados a tal distância. É o Autor divino da Bíblia, o Espírito Santo, quem pôde — e de fato o fez — predizer a obra salvadora de Cristo, desde a primeira página do Livro do Gênesis. O Novo Testamento, portanto, não aboliu o Antigo.
Pelo contrário, o Novo cumpriu o Antigo e, ao fazê-lo, retirou o véu que mantinha oculta a face da noiva do Senhor. Uma vez removido o véu, de repente vemos o mundo da Antiga Aliança carregado de grandeza. Água, fogo, nuvens, jardins, árvores, montes, pombas, cordeiros — todas essas coisas são detalhes memoráveis da história e da poesia de Israel. Mas agora, vistas à luz de Jesus Cristo, elas são muito mais. Para o cristão que tem olhos para ver, a água simboliza o poder salvador do Batismo (1Pd 3,20-21); o fogo, o Espírito Santo (Atos 2,3-4); o cordeiro sem mancha, Cristo crucificado (Jo 1,29; 1Pd 1,18-19); Jerusalém, a cidade da glória celestial (Ap 21,2).
A leitura espiritual da Escritura não é algo novo. Na verdade, os primeiros cristãos liam a Bíblia dessa maneira. São Paulo descreve Adão como um “tipo” que prefigurava Jesus Cristo (Rm 5,14). Um “tipo” é uma pessoa, lugar, coisa ou evento real no Antigo Testamento que prenuncia algo maior no Novo. Dessa palavra deriva “tipologia”, que se refere ao estudo de como o Antigo Testamento prefigura Cristo (CIC 128-130). Em outro lugar, São Paulo extrai significados mais profundos da história dos filhos de Abraão, declarando, “Esses fatos têm um sentido alegórico” (Gl 4,24).
Ele não está sugerindo que esses eventos do passado distante nunca realmente aconteceram; ele está dizendo que os eventos tanto aconteceram, quanto significaram algo ainda mais glorioso que estava por vir. Mais tarde, o Novo Testamento descreve o Tabernáculo da antiga Israel como “representação e sombra das realidades celestes” (Hb 8,5) e a Lei mosaica como “sombra dos bens futuros” (Hb 10,1).
São Pedro, por sua vez, observa que Noé e sua família foram “salvos através da água” de um modo que “prefigura” ao Batismo sacramental, que “agora salva também a vós” (1Pd 3,20-21). É interessante notar que a expressão traduzida como “prefigura”5 neste versículo é um termo grego que denota o cumprimento ou contraparte de um antigo “tipo”.
Não precisamos, porém, olhar apenas para os apóstolos para justificar uma leitura espiritual da Bíblia. Afinal, o próprio Jesus leu o Antigo Testamento dessa maneira. Ele se referiu a Jonas (Mt 12,39), a Salomão (Mt 12,42), ao Templo (Jo 2,19) e à serpente de bronze (Jo 3,14) como “sinais” que apontavam para Ele. Vemos no Evangelho de Lucas, quando Cristo consolava os discípulos no caminho de Emaús, que “começando por Moisés e passando por todos os Profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, o que se referia a ele” (Lc 24,27). Foi precisamente essa extensa interpretação espiritual do Antigo Testamento que causou tanto impacto naqueles viajantes antes desanimados, fazendo com que seus corações “ardessem” dentro deles (Lc 24,32).
Critérios para a Interpretação da Sagrada Escritura

Nós também devemos aprender a discernir o “sentido pleno” da Escritura, pois ele inclui tanto o sentido literal quanto os sentidos espirituais juntos. Ainda assim, isso não significa que devamos “inserir” na Bíblia significados que não estão realmente ali. A exegese espiritual não é um voo irrestrito da imaginação. Pelo contrário, é uma ciência sagrada que procede segundo certos princípios e permanece responsável diante da Sagrada Tradição, do Magistério e da comunidade mais ampla de intérpretes bíblicos (vivos e falecidos).
Ao buscar o sentido pleno de um texto, devemos sempre evitar a tendência extrema de “superespiritualizar”6, de modo a minimizar ou negar a verdade literal da Bíblia. Santo Tomás de Aquino estava bem consciente desse perigo e declarou: “Todos os outros sentidos (da Sagrada Escritura) devem estar fundados no sentido literal”7. Por outro lado, jamais devemos confinar o sentido de um texto ao sentido literal pretendido pelo autor humano, como se o Autor divino não tivesse a intenção de que a passagem fosse lida à luz da vinda de Cristo.
Felizmente, a Igreja nos deu diretrizes em nosso estudo da Escritura. O caráter único e a autoria divina da Bíblia nos chama a lê-la “com o mesmo espírito com que foi escrita” (Dei Verbum 12). O Concílio Vaticano II apresenta esse ensinamento de maneira prática ao nos orientar a ler as Escrituras segundo três critérios específicos:
- Devemos “Prestar muita atenção ‘ao conteúdo e à unidade da Escritura inteira’, pois, por mais diferentes que sejam os livros que a compõem, a Escritura é una em razão da unidade do projeto de Deus, do qual Cristo Jesus é o centro e o coração, aberto depois de sua Páscoa” (CIC 112; cf. Lc 24,25-27.44-46).
- Devemos “ler a Escritura dentro da ‘Tradição viva da Igreja inteira’. Consoante um adágio dos Padres ‘a sagrada Escritura está escrita mais no coração da Igreja do que nos instrumentos materiais’8. Com efeito, a Igreja leva, em sua Tradição, a memória viva da Palavra de Deus, e é o Espírito Santo que lhe dá a interpretação espiritual da Escritura (‘segundo o sentido espiritual que o Espírito dá à Igreja’)” (CIC 113).
- Devemos “estar atentos à ‘anagogia da fé’. Por ‘anagogia da fé’ entende-se a coesão das verdades da fé entre si e no projeto total da Revelação.” (CIC 114; cf. Rm 12,6).
Esses critérios nos protegem de muitos dos perigos que enredam leitores da Bíblia, desde o novo curioso até o mais prestigiado estudioso. Ler a Escritura fora de contexto é uma dessas armadilhas — e provavelmente a mais difícil de evitar. Uma charge memorável dos anos 1950 mostra um jovem concentrado sobre as páginas da Bíblia. Ele diz à irmã: “Não me incomode agora; estou tentando encontrar um versículo bíblico que apoie um dos meus preconceitos.” Sem dúvida, um texto bíblico arrancado de seu contexto pode ser torcido para dizer algo muito diferente daquilo que seu autor9 realmente pretendia. Os critérios da Igreja nos orientam aqui ao definir o que constitui o contexto autêntico de uma determinada passagem bíblica.
O primeiro critério nos dirige ao contexto literário de cada versículo, incluindo não apenas as palavras e parágrafos ao redor, mas também todo o corpus dos escritos do autor bíblico e, de fato, o escopo de toda a Bíblia. O contexto literário completo de qualquer versículo da Escritura inclui todo texto de Gênesis a Apocalipse — porque a Bíblia é um livro unificado, não apenas uma biblioteca de livros diferentes. Quando a Igreja canonizou o Livro do Apocalipse, por exemplo, ela reconheceu que ele é incompreensível fora do contexto mais amplo de toda a Bíblia.
O segundo critério coloca a Bíblia firmemente no contexto de uma comunidade que preserva uma “tradição viva”. Essa comunidade é o Povo de Deus ao longo dos séculos. Os cristãos viveram sua fé por muito mais de um milênio antes da invenção da imprensa de Gutenberg (por volta de 1400 anos). Durante séculos, poucos fiéis possuíam cópias dos Evangelhos, e poucas pessoas sabiam ler. Ainda assim, absorviam o evangelho — pelas homilias de seus bispos e clero, pela oração e meditação, pela arte cristã, pelas celebrações litúrgicas, e pela tradição oral.
Essas eram expressões da única “tradição viva”, uma cultura de fé viva que se estende desde o antigo Israel até a Igreja contemporânea. Para os primeiros cristãos, o evangelho não podia ser entendido separado dessa tradição. Assim também é para nós. A reverência pela tradição da Igreja é o que nos protege de qualquer tipo de provincianismo cronológico ou cultural, como modismos acadêmicos que surgem e arrastam uma geração inteira de intérpretes antes de serem descartados pela geração seguinte.
O terceiro critério situa os textos bíblicos no quadro da fé. Se acreditamos que as Escrituras são divinamente inspiradas, também devemos acreditar que são internamente coerentes e consistentes com todas as doutrinas que os cristãos professam. Lembre-se, os dogmas da Igreja (como a Presença Real, o papado, a Imaculada Conceição) não são coisas acrescentadas à Escritura; pelo contrário, são a interpretação infalível da Igreja sobre a Escritura.
Texto base escrito por Scott Hahn.
Traduzido por Ayran Gomes.
Revisado e alterado por Gabriel Ramos.
Categoria Introdução às Sagradas Escrituras.
Observação: Esse texto não é uma tradução do original, mas foi modificado e não pode ser utilizado como uma citação do autor original. Quando for uma tradução, ficará claro que nada do texto foi alterado.
- Hugo de São Vitor, De Arca Noe II, 8: PL, 176, 642: cf. Ibid., 2. 9: PL, 176, 642-643. ↩︎
- “A Sagrada Escritura é a palavra de Deus enquanto foi escrita por inspiração do Espírito Santo” (Dei Verbum 9). ↩︎
- DV, 25: AAS 58 (1966) 829: cf. São Jerônimo, Commentarii in Isaias, Prologus: CCL, 73, 1 (PL, 24, 17). Citado pelo CIC 133 ↩︎
- (G2315) θεόπνευστος (theopneustos): Soprado por Deus, inspirado por Deus (1 ocorrência na Bíblia inteira). ↩︎
- (G499) ἀντίτυπον (antitypon): Antítipo, contraparte, figura correspondente (2 ocorrências: Hb 9,24 e 1Pd 3,21). ↩︎
- Ver espiritualidade onde não há fundamento; alegorizar indevidamente, de forma exageradamente simbólica; “alegoria forçada” ou “exegese alegórica excessiva”. ↩︎
- STh I, 1, 10, ad 1; citado no CIC 116 ↩︎
- Cf. Santo Hilário de Poitiers, Liber ad Consantium Imperatorem 9: CSEL 65, 204 PL, 10, 570; São Jerônimo. Commentarius in epistulam ad Galatas | 1, 11-12: PL, 26, 347. Citado pelo CIC 113. ↩︎
- Ambos os autores: Deus e os homens. ↩︎
Sobre o Autor
3 Comentários
Ficou muito interessante os temas que vocês abordam aqui.
Obrigado pelo retorno, nós expandiremos os temas conforme o tempo passar. Por enquanto, focaremos na Sagrada Escritura.
Gostei muito dessa leitura introdutória, era algo que não tinha noção, essa base sobre os sentidos da Escritura e seus critérios a luz da doutrina da Igreja. Gostei muito dos exemplos, fazendo comparações com as Escrituras, sobre como por exemplo como Deus fala através da linguagem dos autores, fica mais fácil entender.