
Este artigo examina a história da salvação a partir da noção bíblica de alianças, destacando seu desenvolvimento progressivo nas Escrituras e sua leitura na Tradição cristã católica. A análise busca situar o tema em seu contexto teológico e histórico, oferecendo uma base sólida para a compreensão da economia divina.
Sumário
A Bíblia narra uma história coerente do esforço de Deus para convidar a humanidade a um relacionamento familiar consigo mesmo. Ela se estende desde a Criação do mundo no Livro de Gênesis até o julgamento final do homem e dos anjos no Livro do Apocalipse.
Na Igreja contemporânea, essa história é usualmente chamada de “história da salvação”, mas os Padres da Igreja se referiam a ela como a “economia divina”. O termo “economia” provém de duas palavras gregas, oikos (casa) e nomos (lei). O sentido literal é “lei da casa” e se refere à maneira como um lar é governado. A economia divina é a história de como Deus governa a sua casa — a sua família, o Povo de Deus — ao longo da história.
Os Padres da Igreja reconheceram, desde cedo, que a economia divina progredia por meio de etapas ou épocas, frequentemente identificadas com as várias alianças que Deus firmou entre Ele e a humanidade. Uma aliança é a extensão do parentesco por juramento, em outras palavras, uma maneira de jurar que alguém faça parte da sua família.
Deus se relaciona conosco por meio de alianças, porque não somos Seus filhos por natureza, mas Deus deseja elevar-nos ao status de filhos e filhas. A tradição espiritual católica chama essa realidade de ser filho ou filha de Deus de “filiação divina”. Este é um ensinamento único da fé cristã entre as religiões do mundo. No islã, é blasfemo alegar ser um filho de Deus.
No Judaísmo, é uma metáfora. No budismo clássico, é irrelevante e até sem sentido, porque a individualidade da pessoa é uma ilusão a ser superada no processo de fuga dos ciclos de reencarnação. Outros exemplos poderiam ser dados. Basta dizer que somente o Cristianismo sustenta que podemos nos tornar filhos e filhas de Deus, o Criador, que é Ele próprio um Pai e sustenta a fonte de toda paternidade (Ef 3,14-15). Baseando-se no trabalho dos Padres da Igreja, nas antigas tradições rabínicas e na erudição bíblica contemporânea, podemos identificar na narrativa bíblica diversas alianças distintas feitas entre Deus e a humanidade que marcam as etapas de progresso da história da salvação.
1. A Aliança Adâmica/da Criação

A primeira pode ser chamada de aliança “Adâmica” ou “da Criação”. Gênesis fala de Adão sendo criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26). Em Gênesis 5,3, contudo, descobrimos que os termos “imagem” e “semelhança” descrevem como um filho é semelhante ao pai.
Levando essa informação de volta para Gênesis 1,26, percebemos as implicações: Adão foi criado em uma relação de aliança que lhe conferiu o status de filho em relação a Deus (veja Lc 3,38). Esse status foi a base de outros papéis e privilégios que Adão desfrutou. Por exemplo, é-lhe concedido “domínio” sobre todas as outras criaturas (Gn 1,26. 28), um termo real que indica que Adão era um rei sobre a Criação (cf. Sl 8,4-8).
Em Gênesis 2,15, ele é colocado no Jardim do Éden para o “cultivar” e o “guardar” (Hebraico, ‘abad e shamar). usando um par de verbos que é usado em outras passagens para resumir os deveres dos sacerdotes de Israel (Nm 18,7) e dos levitas (Nm 3,7-8) no santuário.
O autor sagrado relata o Éden como um santuário adornado com árvore frutíferas (Gn 2,9), água abundante (Gn 2,10), ouro e pedras preciosas (Gn 2,11-12), uma fonte de vida eterna (Gn 3,22), anjos da guarda (Gn 3,24), e uma única entrada voltada para o leste (Gn 3,22). Esses motivos serão incorporados na construção de santuários bíblicos subsequentes, como o Tabernáculo de Moisés (Êx 25-30 e 35-40) e o Templo de Salomão (1 Rs 6-8).
Adão foi o sacerdote original do Éden, o santuário original. Ele também foi um profeta: Deus realiza o ato divino de conferir a cada aspecto da criação seu nome em Gênesis 1 (Gn 1,5. 8. 10); mas em Gênesis 2, Deus confere a Adão a autoridade para falar em nome de Deus ao nomear os animais (Gn 2,19-20). Rei, sacerdote, profeta: esses papéis decorrem da filiação ou filiação aliançal de Adão, tipificando os papéis de Jesus e também de todo cristão. Eva complementa ou completa Adão e compartilha plenamente desses papéis juntamente com ele (Gn 2,20-24).
Lamentavelmente, Adão e Eva falham em corresponder às exigências de ser filho e filha de Deus e usam mal seus papéis. Ouvindo a serpente, que a Escritura posteriormente revela ser o diabo (Sb 2,24) e Satanás (Ap 20.2), Adão e Eva desobedecem a Deus ao comerem o fruto da árvore proibida.
Tendo rejeitado o amor de Deus por meio da desconfiança e falhado em seu dever sacerdotal de cuidar do jardim-templo, eles são expulsos do santuário para lutar pela sobrevivência nos reinos profanos da terra. A história humana rapidamente decai para um pecado ainda maior, começando com o assassinato de Abel por Caim e progredindo até o mundo esteja cheio de sexualidade pervertida (Gn 4,19; 6,2. 5) e violência (Gn 6,11-12).
2. A Aliança Noaica

Neste ponto, Deus, em um ato tanto de julgamento quanto de recriação, submerge o mundo mais uma vez sob as águas primordiais (compare Gn 1,2 com 7,17-20; 8,1-3), salvando o homem justo Noé e sua família, juntamente com pares de cada animal, em uma arca. A arca pousa no Monte Ararate, uma espécie de santuário-jardim flutuante que repousa sobre um novo Monte Éden.
Noé, uma nova figura de Adão, emerge da arca e realiza o ato sacerdotal de oferecer sacrifício (Gn 8,20). Deus, misericordiosamente, renova a aliança com Noé (Gn 9,1-17), repetindo bênçãos originalmente dadas a Adão (compare Gn 9,1-2 com Gn 1,28-30). Contudo, o pecado deixou uma ferida duradoura, porque agora há desarmonia entre o homem e a natureza (compare Gn 9,2-6 com Gn 1,28-29).
Não obstante, o relacionamento filial do homem em aliança com Deus foi restaurado. Esta aliança restaurada entre Deus e a humanidade não dura muito antes que também seja perturbada. Em uma ação que não condiz com seu papel patriarcal-sacerdotal, Noé se embriaga (Gn 9,21; cf. Lv 10,8-9) e jaz nu em sua tenda (Gn 9,21; cf. Êx 20,26; 28,42). Seu filho Cam se aproveita da vulnerabilidade de Noé para um ato enigmático descrito como ver a “nudez de seu pai” (Gn 9,22; cf. Lv 20,11-17), o que leva Noé a amaldiçoar os descendentes de Cam através de seu filho Canaã (Gn 9,25).
Os motivos compartilhados do consumo de fruto, nudez, vergonha e maldição permitem-nos ver que este episódio é uma recapitulação da queda de Adão no Éden. Noé, o novo Adão, caiu, reintroduzindo a maldição e a inimizade na família humana.
O estado da humanidade degenera novamente ao longo das gerações, culminando em um ato corporativo de desafio do homem contra Deus, no qual os homens recusam a ordem de Deus de se espalharem e encherem a terra (Gn 9,1) ao construir uma torre que incorpora sua arrogância (Gn 11,4). Isso ironicamente cumpre o mandato de Deus de se espalhar pela terra, mas agora a humanidade está alienada tanto de Deus quanto uns dos outros. Como pode a bênção ser restaurada à família humana, restabelecendo a comunhão com Deus e entre eles?
3. A Aliança Abraâmica

Deus empreende uma nova iniciativa salvífica chamando o homem Abrão, por meio de quem a bênção virá novamente a “todas as famílias da terra” (Gn 12,3). Deus concede a Abrão três promessas específicas: uma grande nação, um grande nome e a bênção universal sobre a humanidade (Gn 12,2-3). Mais tarde, no decorrer de Seu relacionamento com Abrão, Deus incorpora cada uma dessas promessas em uma aliança formal com ele.
Em Gênesis 15, utilizando um ritual antigo e bem atestado de fazer aliança, que envolvia animais abatidos (cf. Jr 34,18), Deus inicia uma aliança com Abrão que promete a terra e numerosos descendentes necessários para se tornar uma grande nação (Gn 15,7-21). Posteriormente, em Gênesis 17, Deus confirma, por meio do ritual de aliança da circuncisão, a promessa de uma dinastia real (Gn 17,6) implícita na antiga expressão do Oriente Próximo de grande nome (cf. 2 Sm 7,9). Finalmente, Deus submete Abrão, agora com o nome maior “Abraão” (Gn 17,5), ao teste máximo de lealdade à aliança: que ele oferecesse seu filho amado, Isaque, a Deus (Gn 22,2).
Obedientemente, Abraão viaja para o monte de Deus, onde coloca a lenha do sacrifício nas costas de seu filho, Isaque. Tipificando Cristo, Isaque carrega essa lenha montanha acima, onde é deitado sobre a lenha em preparação para ser sacrificado a Deus. Neste ato de obediência mútua, Abraão e Isaque demonstram sua vontade de passar pelo tipo de sacrifício que o próprio Deus, a Santíssima Trindade, teria que passar para conceder a bênção a toda a humanidade no mesmo local: o sítio do sacrifício de Isaque em um monte em Moriá viria a se tornar, mais tarde, o local do Templo de Jerusalém (compare Gn 22,2 e 2Cr 3,1).
Em recompensa pela obediência demonstrada, Deus salva Isaque da morte sacrificial que ele havia aceitado livremente, orientando Abraão a sacrificar um carneiro, em seu lugar. Ele então concede ao pai e ao filho o maior juramento de aliança do Antigo Testamento, que pode ser traduzido como se segue: “Por mim mesmo jurei, diz o Senhor, porquanto fizeste esta ação, e não me negaste teu filho, teu unigênito, eu te abençoarei… e na tua descendência serão benditas todas as nações da terra, porque obedeceste à minha voz” (Gn 22,16-18, tradução de John S. Bergsma). Assim, Deus incorpora formalmente a promessa de bênção universal no juramento-aliança que liga Abraão a Deus (cf. Lc 1,72-73).
4. A Aliança Mosaica

Ao contrário do resultado das alianças com Adão e Noé, a finalização da aliança com Abraão não é seguida por uma queda desastrosa da aliança. Deus prossegue para cumprir Sua promessa a Abraão, embora o processo seja complicado pelos pecados de seus descendentes. Através de muitas lutas, a família de Abraão acaba no Egito, onde se torna fecunda e se multiplica (Êx 1,7).
Para se tornar uma “grande nação”, porém, eles precisam de leis e de uma terra própria. Deus envia Moisés como libertador para obter esses dois objetivos para Israel. Ele os conduz para fora do Egito, para o deserto, e estabelece uma aliança e leis para eles no Monte Sinai (Êx 19-24), transformando-os de uma multidão de pessoas aparentadas em uma sociedade civil, o cerne de uma grande nação. Deus prometeu que se eles obedecessem às leis desta aliança, eles se tornariam um “sacerdócio real” (Êx 19,6 LXX, cf. 1Pe 2,9), em outras palavras, uma raça de reis-sacerdotes que governariam e santificariam o resto das nações, restaurando-lhes a bênção divina prometida ao mundo por meio de Abraão.
Dessa forma, a tríplice promessa feita a Abraão de grande nação, grande nome (realeza) e grande bênção teria sido cumprida através da aliança Mosaica.
Entretanto, assim como Adão, o povo de Israel mal recebe uma aliança e já a quebra (Os 6,7) ao adorar o bezerro de ouro, uma imagem de uma divindade egípcia (Êx 32,1-6). Isso dá início a um longo processo pelo qual a aliança Mosaica é expandida para lidar com repetidas rebeliões contra Deus enquanto a nação vagueia no deserto por quarenta anos (Nm 11-25).
Deus repetidamente adiciona leis à aliança em resposta aos pecados de Israel, até que, na época da morte de Moisés, ao fim de Deuteronômio, a aliança tenha crescido de uma pequena coleção de leis (Êx 20-23) para um enorme corpo de regulamentos (Lv 1-27; Nm 1-10; 26-36; Dt 4-28) que são difíceis de seguir fielmente (cf. At 15,10).
Moisés falhou, em última análise, em conduzir os descendentes de Abraão à Terra Prometida. Mas onde ele falhou, seu sucessor, Josué, teve sucesso. O nome Josué significa “salvação” e foi posteriormente traduzido para o grego como Iesous, “Jesus”. O ministério de Josué prefigura o de Cristo, especialmente no fato de que ele realizou o Moisés não pôde, o que reflete a inadequação da aliança Mosaica e a necessidade de uma nova, dada por Alguém que verdadeiramente pode trazer a salvação.
Josué manteve a disciplina ritual e moral entre o povo de Israel durante sua carreira e os liderou na expulsão dos cananeus e no estabelecimento na terra de Israel. Mas após a morte de Josué, o povo lutou muito para fiel à aliança Mosaica e sofreu nas mãos de seus inimigos, exceto durante breves períodos de alívio sob a liderança de heróis carismáticos, tradicionalmente chamados de “juízes” (veja Jz 2,6-23). Esse padrão continuou por centenas de anos até o próximo grande passo na economia divina, que chegou com o surgimento de Davi no palco da história.
5. A Aliança Davídica

O profeta Samuel, o último dos juízes de Israel, ungiu Davi como rei sobre Israel em 1 Samuel 16. O autor sagrado diz que Samuel “o ungiu… e daquele dia em diante o Espírito do Senhor se apoderou de Davi” (1 Sm 16,13). Esta posse estável ou contínua do Espírito Santo distingue Davi de praticamente todas as outras figuras no Antigo Testamento; assim, ele é descrito como; “um homem segundo o coração [de Deus]” (1 Sm 13,14). Ele ascendeu para exercer não apenas o reinado sobre Israel (2 Sm 5,1-3), mas, como um novo Adão, também funcionou como sacerdote (2 Sm 6,12-19) e profeta (2 Sm 23,1-7).
Davi exerceu esses papéis em parte porque Deus fez uma aliança com ele (2 Sm 7,4-14; 2 Sm 23,5-7; Sl 89,3-4) que o estabeleceu, ele e seus herdeiros, como reis sobre Israel e até mesmo sobre o mundo (Sl 2,7-9) por todo o tempo.
E assim, sob Davi, o reino de Israel se expandiu para se tornar um império governando os povos vizinhos (2 Sm 8-10), e esse processo continuou sob seu herdeiro, Salomão (1 Rs 4,21), que também levou Israel ao seu maior auge político e religioso, marcado pela dedicação de um Templo a Deus em Jerusalém (1 Rs 8). Neste ponto, Salomão havia expandido Israel em uma grande nação e alcançado o “grande nome” prometido ao seu ancestral Abraão. Além disso, através de sua sabedoria divina, Salomão se tornou uma fonte de bênção para as nações que acorriam a Jerusalém para receber sua instrução (1 Rs 4,29-34).
Assim, por uma breve Era de Ouro, a tríplice promessa a Abraão foi cumprida na história através do reino Davídico. A economia da aliança Davídica cumpriu as promessas da aliança Abraâmica.
Infelizmente, esta era de cumprimento não durou. Já nos últimos anos do reinado de Salomão, ele começou a desertar da aliança do Senhor (1 Rs 10,14-11,40). Após a morte de Salomão, o reino de Davi se dividiu em dois, Israel do Norte e Judá do Sul, e os reinos divididos declinaram inexoravelmente.
Apesar dos esforços heroicos de reforma sob reis justos como Ezequias (729-686 a.C..; 2 Rs 18,20) e Josias (640-609 a.C.; 2 Rs 22,1-23;30), a decadência moral e política do reino de Davi ao longo de quatro séculos levou, em última instância, à derrota, conquista, destruição e exílio nas mãos do Império Babilônico (cerca de 586 a.C.; 2 Rs 25,1-26). Este período de declínio moral e político foi, paradoxalmente, a era de ouro da profecia israelita, testemunhando os ministérios de Elias, Eliseu, Isaías, Jeremias, Ezequiel e outros.
Elias e Eliseu chamaram Israel do Norte ao arrependimento nos primeiros anos da monarquia dividida. Em séculos posteriores, quando a esperança de qualquer recuperação imediata desapareceu, os grandes profetas literários (escritores) Isaías, Jeremias e Ezequiel direcionaram as aspirações de Israel para uma nova aliança que Deus estabeleceria no futuro. Esta nova aliança consistiria, de uma forma misteriosa, na própria pessoa do “servo” do Senhor (Is 42,6; 49,8), que Deus designaria para salvar Israel (Is 49,5-6). Ela envolve a escrita da lei de Deus nos corações dos fiéis em vez de em tábuas de pedra (Jr 31,33) e o perdão do pecado (Jr 31,34).
De fato, os fiéis receberiam um “coração novo” e um “espírito novo” dentro deles (Ez 36,26), nada menos que o próprio Espírito de Deus (Ez 37,14; Is 59,21). Além disso, Deus restauraria o reino de Davi e cumpriria Sua promessa de aliança a Davi e seus herdeiros (Is 9,1-7; 11,1-5; 10; 55,1-3; Jr 23,5; 30,9; 33,15-26; Ez 34,23-25; 37,24-28).
Quando Ciro, Rei da Pérsia, derrotou o Império Babilônico e permitiu que o povo de Judá retornasse e reconstruísse sua terra natal, sua cidade e seu Templo (Esdras 1,1-4), isso despertou esperanças de que a era da “nova aliança” prometida pelos grandes profetas tivesse chegado. De fato, sob a liderança do sacerdote Esdras, do governador Neemias e de outros, os judeus reconstruíram seu Templo (Esdras 3,10-6,18), restauraram sua capital (Ne 1,1-6,16) e renovaram a aliança de Moisés (Ne 8-10). Mas a prometida nova aliança e a restauração do reinado Davídico não se concretizaram (Ne 13). Em vez disso, o povo de Judá definhou por século e até experimentou perseguições extremas (2 Mc 6,1-17; 2 Mc 7).
Uma família de levitas (os Hasmoneus, ou “Macabeus”) usurpou o sumo sacerdócio e o reinado de Israel (1 Mc 10,20; 11,57), embora não fossem da linhagem de Aarão nem de Davi. O reinado acabou caindo nas mãos de um aristocrata meio-judeu chamado Herodes, “o Grande” (37 a.C.-4 a.C. — datação aproximada), que se casou com a família Hasmoneana. Neste estado de coisas sombrio e desolador, com religião e poder civil sob o controle de usurpadores, Deus enviou o Servo prometido por Isaías, que se tornaria a Nova Aliança.
6. A Nova Aliança em Cristo

O primeiro versículo do Novo Testamento introduz a era da Nova Aliança com o anúncio: “Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão”. Nesta breve sentença, o evangelista Mateus liga Jesus Cristo ao cumprimento de três grandes alianças da história da salvação: a Adâmica, a Abraâmica e a Davídica. A frase “o livro da genealogia” ocorre em outro lugar apenas em Gênesis 5,1: “Este é o livro da [genealogia] de Adão”.
O reuso da frase por Mateus com respeito a Jesus claramente O coloca no papel de um novo ou segundo Adão, um refundador da raça humana e alguém para restaurar a comunhão com Deus que caracterizou o Éden. Em seguida, Mateus chama Jesus de “filho de Davi”, um título messiânico que se refere, não meramente a qualquer descendente, mas ao herdeiro do trono e das promessas aliançais feitas a Davi (2 Sm 7,12-16; Heb.; Sl 2,7-12; 89,20-29).
Finalmente, Ele é o “filho de Abraão”, significando não meramente qualquer filho (Mt 3,9), mas o herdeiro ou “descendência” prometida a Abraão através de quem a bênção viria a todas as nações da terra (Gn 22,18, Heb.). Assim, Jesus é Aquele que restaura a comunhão com Deus experimentada no Éden e cumpre as promessas associadas às alianças de Abraão e Davi.
À medida que o Evangelho de Mateus avança, vemos Jesus cumprindo os papéis dos grandes mediadores da aliança do passado. Como Salomão, o filho de Davi, Ele é procurado por homens sábios do Oriente que trazem presentes (Mt 2,1; 1 Rs 4,29-34). Como Moisés, Ele sobe a uma montanha para ensinar ao povo a lei de Deus (Mt 5,1-2) e os alimenta no deserto com pão milagroso (Mt 14,13-21). Como Davi, Ele expulsa espíritos malignos dos possuídos (Mt 12,22-23; cf. 1 Sm 16,14-23).
Mas é especialmente durante a última semana antes de Sua morte, Sua Semana da Paixão, que o cumprimento da aliança atinge o clímax, quando Jesus estabelece a prometida Nova Aliança, começando no cenáculo e terminando na Cruz. São Lucas nos diz que, na noite em que foi traído, Jesus tomou o cálice após a ceia da Páscoa com Seus Apóstolos e disse: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue”. A frase “no meu sangue” neste contexto significa “consistindo do meu sangue”.
Portanto, Jesus anuncia que a Nova Aliança é o Seu sangue, em particular, o Seu sangue Eucarístico, pois foi isso que encheu o cálice. Visto que as propriedades do sangue são compartilhadas com o corpo, podemos afirmar claramente: segundo as próprias palavras de Jesus, a Eucaristia é a Nova Aliança. Desta forma, a profecia mística de Isaías é cumprida: “Eu te guardei e constituí como aliança do povo, para restaurar a terra” (cf. Isaías 49,8). Através da transformação Eucarística, o Servo do Senhor é dado como uma aliança ao Povo de Deus.
Esta aliança constitui o Povo de Deus como um reino, pois na última Ceia Jesus prossegue dizendo aos Doze: “Eu estabeleço uma aliança (grego diatithēmi) com vocês, assim como meu Pai estabeleceu comigo, um reino, para que vocês… sentem em tronos julgando as doze tribos de Israel” (Lc 22,29–30, tradução de John S. Bergsma).
Assim, a nova economia aliançal é um reino que de alguma forma restaura Israel, e os Apóstolos são príncipes que governarão esta nova disposição do povo de Deus. O dom de Si sob sinais sacramentais no cenáculo é confirmado pelo dom de Si sangrento do corpo de Jesus na Cruz. Lá, na Cruz, o evangelista João registra um belo sinal cheio de significado: o soldado romano perfura o lado de Cristo com uma lança, e dele jorra um rio de sangue e água.
Isso cumpre as próprias palavras de Jesus registradas anteriormente no Evangelho, quando Ele disse: “Se alguém tem sede, venha a mim… como disse a Escritura: ‘Do seu coração fluirão rios de água viva’” (Jo 7,37-38), e João explica: “Ele disse isso sobre o Espírito, que aqueles que n’Ele cressem haveriam de receber” (Jo 7,39). Assim, o rio de sangue e água do coração de Cristo na Cruz é, antes de tudo, um sinal do Espírito derramado do sacrifício de Seu corpo. Contudo, o sangue no Evangelho de João está associado à Eucaristia (Jo 6,53-65) e a água ao Batismo (Jo 1,26. 31. 33; 3,5. 23, etc.).
Então, podemos dar um passo adiante e dizer: o sangue e a água do lado de Cristo são sinais dos sacramentos, que fluem do único sacrifício de Cristo e nos transmitem o Espírito Santo. Os sacramentos são, de fato, um rio do Espírito Santo que flui do Calvário para todas as partes do mundo e através de todos os séculos, até os dias atuais. Assim como um rio vivificante fluiu uma vez do jardim-templo do Éden e regou os quatro cantos do mundo, assim de Jesus, o novo Templo (Jo 2,21), flui o rio sacramental do Espírito para todo o mundo e por todo o tempo, oferecendo a todos a possibilidade de vida eterna.
Desta forma, Jesus, o novo Adão, cumpre a promessa de nos fazer retornar ao Éden. Mais uma vez, podemos beber do rio da vida no Batismo e comer do fruto da árvore da vida na Eucaristia, pois a nova árvore da vida é a Cruz e seu fruto é o Corpo e o Sangue de Cristo. Resta apenas, então, que esta boa nova do que Cristo fez seja anunciada a todas as pessoas de todos os tempos, para que possam receber a vida eterna, se assim o desejarem.
Assim, no final de Seu ministério terreno, Jesus falou aos Seus discípulos com a autoridade do Filho real de Davi, a quem a promessa do reinado universal havia sido cumprida (cf. Sl 2,7-9), dizendo: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei” (Mt 28,18-20).
Este alcance missionário dos Apóstolos deve ser entendido como a extensão do reino de Cristo, o “reino dos céus” que Ele proclamou desde o início de Seu ministério (Mt 3,2), para todo o mundo. Conforme Jesus confirmou na Última Ceia (Lc 22,30), os próprios Apóstolos constituem os “doze oficiais sobre todo o Israel” de acordo com o padrão antigo estabelecido pelo filho de Davi (cf. 1 Rs 4,7; Mt 10,1-7). Assim, o tema dos Atos dos Apóstolos é a expansão deste reino que Jesus confiou aos Doze. Começa com Jesus “falando do reino de Deus” aos Apóstolos perto de Jerusalém (At 1,3) e termina com o Apóstolo Paulo “pregando o reino de Deus” em Roma (At 28,31).
Este movimento da capital de Israel para a capital do mundo representa a propagação do reino na terra, onde ele se manifesta visivelmente como a ekklesia (“assembleia” ou “congregação”, At 8,1; 9,31; 11,26; 20,28, etc.) isto é, a Igreja. O Livro de Atos termina sem uma resolução adequada, com São Paulo ainda pregando e ensinando ativamente em Roma e sem notícias de seu destino final.
Este final “não resolvido” de Atos aponta para o fato de que a pregação de São Paulo e dos outros Apóstolos não terminou, mas continua nos ministérios de seus sucessores e na vida contínua da Igreja. Atos não termina, porque é uma história da Igreja com final em aberto, e “capítulos” subsequentes continuam a ser adicionados.
A história iniciada em Atos continua até o retorno de Cristo e o fim da história, retratada para nós no Livro do Apocalipse, onde a derrota final do mal e o triunfo de Jesus são descritos nestes termos: “O reino deste mundo se tornou o reino de nosso Senhor e de seu Cristo” (Ap 11,15). Os capítulos finais do Apocalipse retratam o estado final do povo de Deus como uma habitação com Deus em uma cidade que é tanto a “Nova Jerusalém” (Ap 21,2), assinalando o cumprimento da aliança Davídica, quanto também um novo Éden, pois dentro dela estão o rio da vida e a árvore da vida (Ap 22,1-2). Desta forma, a história da salvação completa um ciclo.
No início, homem e mulher habitavam um jardim, como filho e filha de Deus, seu Pai, e com livre acesso aos meios de vida eterna (a árvore e o rio). No final, homens e mulheres habitarão como os filhos de Deus em uma cidade-jardim, experimentando Sua ternura paternal (“Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos”, Ap 21,4), com acesso restaurado à árvore e ao rio vivificantes. Embora a imagem da Nova Jerusalém em Apocalipse 21-22 seja, de fato, uma descrição em símbolos do estado final do povo de Deus (comumente chamado de “céu” ou “Igreja Triunfante”), é também uma descrição do que pode ser experimentado pela fé e através dos sacramentos na Igreja mesmo agora, na história humana.
Pela fé, reconhecemos o Batismo como o rio da vida e a Eucaristia como o fruto da árvore da vida, e experimentamos Deus habitando conosco e em nós através do Espírito Santo, que nos fez filhos de Deus.

Texto base escrito por John S. Bergsma, Ph.D.
Traduzido por Ayran Gomes.
Levemente alterado por Gabriel Ramos.
Ilustrações feitas por Julius Schnorr von Carolsfeld.
Categoria Introdução às Sagradas Escrituras.
Observação: Esse texto não é uma tradução do original, mas foi modificado e não pode ser utilizado como uma citação do autor original. Quando for uma tradução, ficará claro que nada do texto foi alterado.
Sobre o Autor
0 Comentários