
A Bíblia nasce no seio da Igreja Católica, que reconhece o cânon, transmite a Escritura na liturgia e orienta sua interpretação ao longo da história.
Sumário
A Igreja Católica sempre venerou a Bíblia Sagrada como algo singularmente inspirado por Deus. Quando olhamos para a história, fica claro que a Bíblia veio da Igreja (foi reconhecida, preservada e transmitida pela Igreja). Embora Jesus nunca tenha escrito um único versículo da Escritura, Ele proclamou o Reino de Deus e anunciou que esse Reino estaria presente ao longo da história da Igreja que ele edificou sobre os apóstolos, em especial, Pedro (Mt 16,18-19).
A maior parte do Novo Testamento foi escrita pelos Apóstolos Mateus, João, Paulo e Pedro1. Seus sucessores, os bispos, em união com o Papa como sucessor episcopal de Pedro, foram responsáveis por determinar (reconhecer) quais livros pertenciam à Bíblia. A questão da Escritura era importante porque determinaria quais livros seriam adequados para preparar os fiéis para um encontro transformador com Deus nos sacramentos.
Nas Escrituras, Deus vem ao nosso encontro como um Pai amoroso que fala aos seus filhos; como o Amante de nossas almas, conduzindo-nos ao Céu; e como nosso amigo mais íntimo, guiando-nos na jornada da vida. Na Escritura, aprendemos como nos comportar como filhos e filhas de Deus. Aprendemos quem é Deus e qual é o nosso lugar na história mais ampla da salvação. O recurso frequente à Escritura é, portanto, essencial em nossas vidas como católicos. Ela é um importante lugar de encontro com Deus.
A Bíblia Sagrada e a Igreja
Como em qualquer assunto relativo à fé e à vida, o ensinamento da Igreja sobre a Escritura desenvolveu-se ao longo do tempo, sob a orientação do Espírito Santo. Muitos desses desenvolvimentos ocorreram em resposta aos desafios de cada época.
Desenvolvimento Canônico

A primeira questão relativa à Escritura que precisou ser enfrentada pela Igreja dizia respeito ao seu conteúdo: quais livros compunham a Sagrada Escritura? A questão era particularmente importante, dado o lugar da Escritura na liturgia eucarística.
A primeira grande pergunta surgiu por volta de 150 d.C., quando Marcião argumentou que o Antigo Testamento não pertencia à Escritura. Ele chegou a negar que os Evangelhos de Mateus, Marcos e João fossem escriturísticos.
Por volta dessa mesma época (150 d.C.) esse problema com as Escrituras também estavam presentes entre os judeus que, com a rápida expansão do cristianismo, começaram a rejeitar passagens bíblicas importantes para comprovar Jesus Cristo — Deus que tomou para si a natureza humana no ventre da Virgem Maria e morreu por todos os nossos pecados — junto da passagem da Antiga para a Nova e eterna Aliança.
Ao debater com Trypho (Trifão; um judeu religioso), São Justino Mártir percebe este acontecimento e afirma:
Não me deixo persuadir por vossos mestres, que não admitem estar bem feita a tradução de vossos setenta anciãos (Septuaginta – LXX) que estiveram com Ptolomeu, rei do Egito, mas colocaram-se eles mesmos a traduzir. Além disso, quero que saibais que eles eliminaram completamente muitas passagens da versão dos setenta anciãos que estiveram com o rei Ptolomeu, nas quais se demonstra que esse mesmo Jesus crucificado foi claramente anunciado como Deus e homem, e que havia de ser crucificado e morrer. Como sei que todos os de vossa raça [judeus] os rejeitam, não me detenho em discuti-los, mas passo às provas tomadas dos que ainda admitis. Com efeito, todos vós reconhecei todos os textos que até agora vos citei, exceto o seguinte: “Eis que uma virgem conceberá”, que vós dizeis que se deve ler: “Eis que uma jovem conceberá”. Eu vos prometi demonstrar que esta profecia não se refere a Ezequias, como vos ensinaram, mas a este meu Cristo.
– São Justino Mártir, Diálogo com Trifão, Capítulo 71. Tradução Paulus (Patrística Vol. 3)
O século (ou mais) que se seguiu a Marcião viu um número crescente de listas de livros que compunham a Bíblia2. Já na época de Marcião, os quatro Evangelhos — Mateus, Marcos, Lucas e João — eram amplamente aceitos como Escritura.
Santo Atanásio de Alexandria, o herói do Concílio de Niceia, escreveu sua 39ª Carta Festal em 367 d.C. Nessa carta encontramos a primeira lista dos 27 livros do Novo Testamento que hoje, tanto protestantes quanto católicos, bem como a maioria dos cristãos “ortodoxos” e orientais antigos, reconhecem como, reconhecem como formando o Novo Testamento.
O primeiro cânon bíblico completo foi estabelecido no Sínodo de Roma (382 d.C.)3 A decisão de Roma foi posteriormente reafirmada em outros concílios locais, por exemplo, Hipona em 393 d.C. e o 3º Concílio de Cartago em 397 d.C. O cânon bíblico permaneceu fixo a partir de então na cristandade ocidental até a época da Reforma Protestante.
Por volta da mesma época de Marcião (150 d.C.), São Justino Mártir descreveu a liturgia cristã em uma carta ao imperador Antonino Pio, a seus filhos, ao Senado e a todo o povo do império romano4. Segue-se a descrição:
E no dia chamado domingo, todos os que vivem nas cidades ou no campo se reúnem em um só lugar, e as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas são lidos, enquanto o tempo permitir; então, quando o leitor termina, o presidente instrui verbalmente e exorta à imitação dessas boas coisas. Então todos nos levantamos juntos e oramos, e, como dissemos antes, quando nossa oração termina, pão, vinho e água são trazidos, e o presidente, da mesma forma, oferece orações e ações de graças, de acordo com sua capacidade, e o povo concorda, dizendo Amém; e há uma distribuição para cada um, e uma participação naquilo pelo qual foram dadas graças, e aos ausentes uma porção é enviada pelos diáconos
– São Justino Mártir, Primeira Apologia, Capítulo 67.
Vale lembrar, para contexto, que São Justino descrevia esse pão e vinho da seguinte forma:
E este alimento é chamado entre nós de Εὐχαριστία [a Eucaristia ], da qual ninguém pode participar senão aquele que crê que as coisas que ensinamos são verdadeiras, que foi lavado com a lavagem que é para a remissão dos pecados e para a regeneração, e que vive de acordo com o que Cristo ordenou. […] nos foi ensinado que o alimento que é abençoado pela oração da Sua palavra, e do qual o nosso sangue e carne são nutridos pela transmutação, é a carne e o sangue daquele Jesus que se fez carne. Pois os apóstolos, nas memórias por eles compostas, que são chamadas de Evangelhos, assim nos transmitiram o que lhes foi ordenado; Que Jesus tomou o pão e, tendo dado graças, disse: “Fazei isto em memória de mim” (Lucas 22,19), “isto é o meu corpo”; e que, da mesma maneira, tendo tomado o cálice e dado graças, disse: “Isto é o meu sangue”; e o deu somente a eles [os Apóstolos].
– São Justino Mártir, Primeira Apologia, Capítulo 66.
Tal contexto é importante porque foi, e continua sendo, o principal modo pelo qual os fiéis encontram a Escritura: na liturgia, onde ela os preparava para receber a graça dos sacramentos.
Esse contexto litúrgico e sacramental influenciou o processo de canonização da Escritura. Os três principais critérios usados para determinar quais livros pertenciam ao Novo Testamento foram os seguintes:
- Autoria – Se o texto era entendido como escrito por um Apóstolo ou por alguém que tinha autoridade apostólica por trás de si;
- Conteúdo – Se o conteúdo dos documentos estava conforme as tradições transmitidas pelos Apóstolos ou as contradizia;
- Liturgia – O uso dos textos nas sagradas liturgias das principais igrejas fundadas pelos Apóstolos, em especial Roma.
O uso do documento na liturgia era particularmente significativo, pois o principal propósito da canonização de determinados textos era exatamente o uso na liturgia. Além disso, o uso frequente daquilo que passou a ser conhecido como livros do NT na liturgia Eucarística é, na verdade, o modo como o NT recebeu esse nome.
Os primeiros usos do termo “Novo Testamento”, como se vê no Evangelho de Lucas, eram uma referência à Eucaristia. Em grego, “testamento” e “aliança” são a mesma palavra: diathēkē. Assim lemos em Lc 22,20: “Depois da ceia, fez o mesmo com o cálice, dizendo: ‘Este cálice é a nova aliança [testamento] no meu sangue, que é derramado por vós…“. A proximidade dos textos que chamamos de “Novo Testamento” com a Eucaristia (o “Novo Testamento” original) é o que deu ao NT bíblico o seu nome.
Apesar desses critérios de canonicidade serem essenciais, não é possível, por meros recursos humanos, determinar infalivelmente se determinado livro foi ou não escrito por autores inspirados por Deus, pois “somente o Senhor conhece o coração dos homens” (cf. 1Sm 16,7; At 15,8; Jr 17,10). Por isso, não podemos confiar unicamente em nosso julgamento privado, separado daquela que é a única instituição edificada por Cristo (cf. Mt 16,18), guiada “a toda a verdade” pelo Espírito Santo (cf. Jo 16,13) e constituída como “coluna e sustentáculo da verdade” (cf. 1Tm 3,15).
A identificação dos livros sagrados exige, portanto, um ato de fé nessa guia divinamente assistida, ainda que essa fé seja sustentada e iluminada por numerosos dados históricos que corroboram com o que a Igreja Católica crê e ensina.
Esse tópico será amplamente discutido em um texto chamado “O Cânon Bíblico”, por agora é suficiente.
Desenvolvimento na Interpretação da Bíblia

A interpretação da Escritura também se desenvolveu com o tempo. Os próprios documentos bíblicos mostram evidências de interpretação de documentos mais antigos, e isso é especialmente verdade quanto ao modo como os autores do Novo Testamento leram e interpretaram o Antigo Testamento.
Em alguns casos, eles liam os textos de forma “literal”, de acordo com o sentido básico das palavras. Muitas vezes, porém, os autores do Novo Testamento liam os textos do AT à luz da vinda de Jesus ou dos sacramentos. É isso o que passou a ser chamado de tipologia ou alegoria. Essas foram as duas das principais maneiras pelas quais os primeiros cristãos continuaram a interpretar a Bíblia ao longo dos séculos.
Dois centros intelectuais do cristianismo logo surgiram nas cidades de Antioquia, na atual Turquia, e Alexandria, atual Egito. Antioquia passou a ser associada à exegese literal (ou interpretação bíblica), ao passo que Alexandria passou a ser associada à exegese alegórica ou tipológica. Essas distinções não eram rígidas e, de fato, vincular exclusivamente Antioquia à exegese literal e Alexandria à exegese alegórica é um exagero. Um dos mais famosos intérpretes bíblicos alexandrinos foi Orígenes (c.184-c.253 d.C.), e um dos mais famosos intérpretes bíblicos antioquenos foi Teodoro de Mopsuéstia (c.350-c.428 d.C.).
Com o tempo, começou a emergir um sentido quádruplo da Escritura, baseado em dois sentidos primários: o literal e o espiritual. Ficou conhecido como o “quádruplo sentido da Escritura”, ou quatro sentidos, porque o espiritual foi subdividido em três tipos de sentidos espirituais: alegórico, moral e anagógico5.
A tipologia já se evidenciava no próprio NT. Além disso, como a liturgia incluía leituras tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, ela criou um quadro natural para ler o AT à luz do NT e o NT à luz do AT.
Com o tempo, esse quádruplo sentido tornou-se um método padrão, com alguns interpretes focando mais no sentido literal e outros focando mais no sentido alegórico. Santo Agostinho, escrevendo entre os séculos IV e V, foi fundamental para desenvolver regras que ajudassem a descobrir o sentido divino da Escritura — regras amplamente aceitas em todo o período medieval (e ainda hoje)6.
Um dos maiores intérpretes bíblicos da Igreja foi o Papa São Gregório Magno. Seus Moralia in lob (Morais sobre Jó), escritos no final do século VI, são uma interpretação espiritual do Livro de Jó segundo o sentido moral. Antes de sua elevação ao papado, São Gregório viveu em um mosteiro, onde a interpretação da Escritura estava ligada ao ciclo litúrgico de leituras e tinha por finalidade fazer do leitor/ouvinte um santo.
Em 2Tm 3,16-17, São Paulo afirma:
Toda Escritura é inspirada por Deus e é útil para ensinar, para argumentar, para corrigir, para educar conforme a justiça; a fim de que o homem de Deus seja perfeito, apto para toda a boa obra.
O propósito da Escritura ser divinamente inspirada, ou “soprada por Deus”, é a santificação do crente. Isso era levado muito a sério no contexto monástico, bem como nas escolas catedrais medievais, onde o ideal era a noção cristã primitiva de encontrar Deus na leitura orante da Bíblia Sagrada, o que buscavam por meio de seu estudo sagrado e da prática da Lectio divina, uma meditação orante da Escritura.
Com o surgimento da escolástica nas universidades medievais, começaram a surgir questões sobre quais métodos eram adequados para a interpretação bíblica, embora essas perguntas já existissem antes das universidades. Santo Tomás de Aquino foi importante por sua apropriação do trabalho exegético de Santo Agostinho, mas também por sua grande síntese da tradição interpretativa católica.
Ele esclareceu como o quádruplo sentido podia ser usado de modo apropriado, e não simplesmente segundo os caprichos do intérprete. Demonstrou, além disso, quão fecundo o próprio sentido literal pode ser, fundamentando muitos de seus comentários bíblicos nesse sentido.
Ao longo de toda essa história, a Escritura foi entendida como comunicando a verdade, já que sempre foi compreendida como inspirada por Deus. Como Deus não pode mentir, entendia-se que sua palavra não podia afirmar falsidade de nenhum tipo. Uma noção plenamente desenvolvida de inspiração divina, porém, só surgiria no fim do segundo milênio, quando a inspiração divina da Escritura começou a ser contestada.
O Concílio de Trento

Do século XIII (o século de Santo Tomás de Aquino), ao século XVI, foram feitos grandes avanços no estudo das línguas antigas e na história da tradição textual da Bíblia Sagrada. O estudo desses temas lança um fundamento para o estudo da teologia, mas não é em si diretamente teológico.
Alguns dos intelectuais envolvidos nessas atividades pré-teológicas começaram a questionar a autenticidade de certas passagens da Bíblia. Com a Reforma Protestante, algumas dessas mesmas atividades intelectuais foram empregadas para semear dúvidas quanto à tradição da Igreja. Em última análise, a Reforma Protestante rompeu o vínculo entre a Escritura e a tradição da Igreja, de modo que a cristandade, antes unida, foi divida em facções cristãs cada vez mais fragmentadas7.
Normalmente pensamos na Reforma Protestante em termos de rejeição da tradição católica e afirmação da Bíblia como única autoridade religiosa. Há verdade nisso, mas a Reforma, ao atacar a tradição católica, também atacou a autoridade da própria Bíblia. Martinho Lutero, por exemplo, contestou o cânon da Igreja, questionando quais livros deveriam ser considerados Escritura, não apenas quanto aos deuterocânonicos (1 e 2 Macabeus, Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico e Baruc), mas também livros do NT como Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse.
Diferentes reformadores incluíram livros diferentes em respectivos cânones, ainda que a maioria dos livros permanecesse a mesma, e, com o tempo, praticamente todas as tradições protestantes acabaram concordando com a Igreja Católica nos mesmos 27 livros do NT e rejeitando apenas os 7 Deuterocanônicos (que já estavam fixos no cânon católico desde os séculos IV-V).
Além disso, como no caso de Lutero, mesmo os livros considerados canônicos receberam pesos desiguais, de modo que surgiu uma espécie de “cânon dentro do cânon”, com alguns livros tratados como mais inspirados do que outros. Determinados escritos passaram a ser tratados como normativos para a formulação doutrinal, enquanto outros foram rebaixados à condição de meramente históricos ou apenas “bons para leitura”, ainda que formalmente mantidos no cânon.
Tal prática enfraquece a noção clássica de inspiração plena e uniforme da Escritura e reforça o caráter subjetivo do critério hermenêutico adotado. Lutero, de modo particularmente emblemático, chegou a qualificar a Epístola de São Tiago, cuja autoria última é atribuída ao próprio Deus no entendimento cristão tradicional, como uma “epístola de palha” (ele removeu na segunda edição de sua obra), evidenciando o grau de relativização canônica introduzido por esse paradigma.
Os reformadores protestantes também negaram o sentido espiritual da Escritura (tipológico, moral e anagógico), mas muitas vezes, na prática, simplesmente expandiram o sentido literal para incluir coisas como tipologia e um sentido moral. Lutero substituiu os sentidos tradicionais da Escritura na Igreja por uma série de oposições: Fé versus Obras, Lei versus Evangelho, etc8.
O Concílio de Trento (1545-1563) foi convocado em grande parte para responder à crise protestante que vinha fraturando a cristandade. No que diz respeito à Escritura, Trento reafirmou o cânon que havia sido estabelecido no Ocidente pelo menos desde 382 d.C. Quanto à inspiração divina da Escritura, Trento seguiu o Concílio de Florença (1431-1449), que enfatizara que Deus era o autor de toda a Bíblia, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento.
O que foi singular em Trento, em contraste com o que veio antes, foi sua afirmação da origem divina da Sagrada Tradição, algo importante à luz da crítica protestante à tradição9.
Na esteira da Reforma Protestante e da resposta católica, tradicionalmente chamada de Contra Reforma, surgiu o racionalismo e o ceticismo nas várias ilustrações europeias que varreram o continente. Em particular, vários filósofos e intelectuais do século XVII começaram a criticar a tradição, a fé, a Escritura, as autoridades religiosas tradicionais e até mesmo a própria ideia de Deus.
A Europa estava sendo dilacerada por guerras violentas que mais tarde seriam erroneamente rotuladas de “guerras de religião”, quando, na verdade, foram uma vasta série de conflitos para criar novas ordens políticas a partir dos restos do passado, em que lealdades doutrinais às vezes eram usadas como instrumentos políticos. Na realidade, esses conflitos com frequência colocaram católicos contra católicos e protestantes contra protestantes.
Foi nesse contexto que nasceu o ceticismo religioso moderno. A inspiração e a exatidão da Escritura tornaram-se alvos centrais desse racionalismo e ceticismo. Além disso, os intérpretes mais céticos se apoiaram em tendências que se desenvolveram anteriormente no Renascentismo e na Reforma Protestante e começaram a procurar um método puramente histórico, filosófico ou científico para ler a Bíblia à parte da teologia.
Muitos dos métodos usados hoje por estudiosos contemporâneos, que tendem a minimizar a confiabilidade histórica da Escritura, foram iniciados por intelectuais céticos na época moderna, frequentemente baseando-se em filosofias contrárias ao cristianismo e em concepções de autoridade oriundas do final da Idade Média e que levaram à Reforma Protestante.
À medida que os séculos avançavam e os ataques à inspiração da Escritura se intensificaram, a Igreja respondeu.
Do Vaticano I ao Vaticano II: O Combate ao Modernismo

Em 1870, o Concílio Vaticano I retomou o que já havia sido definido em Trento. Em resposta aos racionalistas que, por dois séculos, vinham afirmando que a Escritura continha numerosos erros, o Vaticano I decretou que a Escritura contém uma “revelação sem erro”. Afirmou igualmente a inspiração divina da Escritura pelo Espírito Santo e que Deus é o autor da Escritura. O foco da discussão do Primeiro Concílio Vaticano sobre a Escritura, em seu decreto Dei Filius de 1870, está na sua autoria divina. Dei Filius esclareceu o alcance da inspiração divina da Escritura ao decretar que a inspiração abrangia os “livros completos” e incluía “todas as suas partes”.
As declarações do Concílio Vaticano I não poderiam ter vindo em melhor hora. Pouco depois de seu encerramento prematuro, a crise modernista irrompeu dentro da Igreja Católica, desafiando as noções de inspiração divina e de interpretação bíblica, entre muitos outros temas teológicos e filosóficos.
As raízes da crise modernista são profundas, mas o contexto imediato está na pesquisa bíblica de vários intelectuais católicos, incluindo padres eruditos do fim do século XIX. Esses estudiosos começaram a apropriar-se de metodologias histórico-críticas que, embora não fossem más em si mesmas, foram forjadas no contexto das tradições mais céticas e racionalistas da época moderna, especialmente do século XVII.
A tentativa de compreender melhor o contexto histórico da Bíblia é claramente importante. O que vinha se desenvolvendo ao longo dos século XVII, XVIII e XIX, porém, eram estudos puramente literários que partiam de uma postura de desconfiança em relação às atribuições tradicionais da origem dos livros bíblicos, muitas vezes desconsiderando as próprias afirmações das Escrituras sobre esses assuntos.
Além disso, embora o objetivo declarado desses indivíduos céticos fosse descobrir a história real por trás dos textos sagrados, eles frequentemente elaboraram teorias literárias complexas sem apoio de evidências externas, seja por motivos teológicos, filosóficos e/ou políticos próprios, seja por motivos de seus patrocinadores (mecenas individuais ou, no caso de professores universitários, os Estados para os quais trabalhavam).
Vários estudiosos católicos do fim do século XIX, que seriam considerados suspeitos de modernismo no início do século XX, estavam apropriando-se desses métodos de maneira aparentemente acrítica ou, pelo menos, começavam a julgar a tradição católica e a compreensão católica da Escritura (sua interpretação correta e sua inspiração) à luz desses métodos, que triunfaram principalmente em universidades protestantes secularizadas da época.
Isso suscitou várias respostas do Magistério. A primeira grande resposta veio na forma da encíclica papal de Leão XIII sobre a Escritura, Providentissimus Deus, de 1893.
Providentissumus Deus tratou principalmente do estudo da Escritura, mas abordou também questões relativas à inspiração divina. Nessa encíclica, Leão XIII enfatizou:
Os comentários do Papa Leão XIII são uma formulação robusta daquilo que os teólogos católicos neoclássicos e protestantes evangélicos americanos chamavam de “inerrância”, termo desenvolvido para proteger a compreensão tradicional antiga da verdade da Escritura, em resposta aos que à acusavam de estar cheia de erros.
[…] é absolutamente errado limitar a inspiração apenas a algumas partes da Sagrada Escritura, ou admitir que o próprio autor da Sagrada Escritura tenha errado. Pois o argumento daqueles que, diante dessas dificuldades, não hesitam em admitir que a inspiração divina se refere a questões de fé e moral, e nada mais, não deve ser tolerado, porque pensam erroneamente que, quando se trata da verdade das opiniões, não se deve tanto investigar o que Deus disse, mas sim ponderar a razão pela qual Ele o disse. Pois todos os livros, completos e parciais, que a Igreja recebe como sagrados e canônicos, foram escritos, em todas as suas partes, sob a inspiração do Espírito Santo; Mas está tão longe de a inspiração divina ser capaz de qualquer erro que, por si só, não só exclui todo erro, como também exclui e rejeita necessariamente, como é necessário, que Deus, a Suprema Verdade, não seja autor de erro algum. Esta é a antiga e constante fé da Igreja, solenemente definida nos Concílios de Florença e Trento; finalmente confirmada e mais expressamente declarada no Concílio Vaticano.
– Papa Leão XIII, Providentissimus Deus.
Leão XIII estava ciente das dificuldades na interpretação da Escritura, e que tais afirmações sobre a ausência de erros não significam que tudo seja fácil de entender, por isso, os leitores precisam do Espírito Santo para ajudar na interpretação da Escritura, e ele indicou a “santidade de vida” como outro auxílio para a interpretação bíblica.
Leão deixou claro que sua encíclica dizia respeito, de modo especial, ao combate aos “racionalistas”, que representavam um novo perigo em matéria de interpretação bíblica. Ao tratar do ensino da Escritura, principalmente no contexto dos seminários e da formação sacerdotal, ele ressaltou a importância de ensinar os alunos a defender a Bíblia Sagrada.
Em sua resposta sobre os meios adequados de interpretar a Escritura, Leão XIII incentivou o uso dos Padres da Igreja como guias importantes, mas advertiu contra um uso acrítico dos Padres. Destacou quão essencial é o Magistério ser visto como guia necessário para a interpretação. Leão também enfatizou a importância das formas modernas de erudição para compreender melhor a Bíblia. Sublinhou o estudo das línguas antigas e a “arte da crítica”. Incluiu críticas e advertências sobre a crítica histórica, especialmente na forma como vinha sendo apropriada de modo cético, mas elogiou as investigações históricas.
Ao tratar dos desafios e dificuldades na interpretação, Leão recomenda o conselho de Santo Agostinho:
Que o que o próprio Agostinho escreveu a Jerônimo seja universalmente válido: “Pois confesso à vossa caridade que aprendi a prestar este temor e honra somente àqueles livros das Escrituras que agora são chamados canônicos, pois acredito firmemente que nenhum de seus autores cometeu qualquer erro ao escrevê-los. E se encontro algo nessas cartas que me parece contrário à verdade, não duvidarei que ou o código é falho, ou o intérprete não captou o que foi dito, ou eu não o entendi de todo”
– Papa Leão XIII, Providentissimus Deus.
Leão institui a Comissão Bíblica Pontifícia como meio de salvaguardar o ensino da Sagrada Escritura por parte dos biblistas católicos. As tendências que o preocupavam, porém, continuaram entre alguns estudiosos católicos da Bíblia, e seu sucessor, o Papa São Pio X, tratou da questão mais ampla daquilo que condenou como modernismo em diversas declarações e documentos ao longo de seu pontificado.
A mais famosa foi sua encíclica contra os modernistas, Pascendi Dominici Gregis, de 1907. A repressão de São Pio X ao modernismo traçou uma clara linha na areia. Alguns modernistas foram excomungados; outros, apenas suspeitos de modernismo, foram absolvidos e permaneceram fiéis à Igreja.
Contudo, o modernismo não foi erradicado, mas passou a agir de forma subterrânea. Várias declarações formais da Comissão Bíblica Pontifícia trataram de questões específicas sobre a interpretação e a história de diversos livros bíblicos em resposta aos modernistas.
Já Pascendi tratou de questões mais amplas, especialmente filosóficas, que sustentavam o trabalho bíblico dos pensadores modernistas. Uma das principais preocupações de São Pio X era o modo como os modernistas desafiavam as noções tradicionais de inspiração bíblica, ainda que afirmasse que as Escrituras eram inspiradas, eles transformaram a Bíblia mais em um livro humano do que um livro divinamente inspirado.
Mais adiante em Pascendi, São Pio X criticou os modernistas por seu “esfacelamento dos Livros Sagrados” e observou:
Assim pois, como a história recebe da filosofia as suas conclusões, assim também a crítica, por sua vez, as recebe da história. O crítico, seguindo a pista do historiador, divide todos os documentos em duas partes. Depois de fazer o tríplice corte acima referido, passa todo o restante para a história real, e entrega a outra parte à história da fé, ou noutros termos, à história interna. Os modernistas põem grande empenho em distinguir estas duas histórias; e, note-se bem, contrapõem à história da fé a história real, enquanto real. Daí resulta, como já vimos, um duplo Cristo; um real, e outro que, de fato, nunca existiu, mas pertence à fé; um que viveu em determinado lugar e tempo, outro que se encontra nas piedosas meditações da fé; tal, por exemplo, é o Cristo descrito no Evangelho de São João, o qual Evangelho, pretendem-no os modernistas, do princípio ao fim é mera meditação.
– Papa São Pio X, Pascendi Dominici Gregis.
O sucessor imediato de São Pio X, o papa Bento XV, costuma ser visto em forte contraste com seu predecessor e, no entanto, quando decidiu comemorar São Jerônimo com uma encíclica sobre estudos bíblicos, a Spiritus Paraclitus de 1920, ele ecoou muitas das preocupações e conselhos tanto de São Pio X quanto de Leão XIII.
Como seus predecessores, Bento XV afirmou cautelosamente os métodos críticos, mas com advertências semelhantes. Segundo São Jerônimo, insistiu na “supereminente autoridade da Escritura”. Quanto à questão da inspiração bíblica, Bento XV seguiu a liderança de Leão XIII ao afirmar que não há erros na Escritura. Escreveu que “a imunidade da Escritura contra o erro ou engano está necessariamente ligada à sua divina inspiração e suprema autoridade” e também afirmou que “a narrativa é absolutamente livre de erro”.
À maneira de Leão XIII, que citou Santo Agostinho para explicar um método fiel e humilde de lidar com dificuldade na interpretação bíblica, Bento XV recorreu a São Jerônimo:
Mantendo princípios como esses, Jerônimo se viu compelido, ao descobrir aparentes discrepâncias nos Livros Sagrados, a empregar todos os esforços para desvendar a dificuldade. Se sentisse que não havia resolvido o problema de forma satisfatória, retornava a ele repetidamente, nem sempre, de fato, com os resultados mais felizes. Contudo, jamais acusaria os escritores sagrados do menor erro — “isso deixamos para gente ímpia como Celso, Porfírio e Juliano”.
– Papa Bento XV, Spiritus Paraclitus, Parágrafo 15.
Da mesma forma, Bento XV condenou abordagens mais céticas da Escritura em termos semelhantes aos de seus predecessores, como quando declarou:
Aqueles que sustentam que as porções históricas das Escrituras não se baseiam na verdade absoluta dos fatos, mas meramente naquilo que eles chamam de verdade relativa, ou seja, no que as pessoas da época geralmente pensavam, também estão — assim como os críticos mencionados anteriormente — em desacordo com o ensinamento da Igreja, que é corroborado pelo testemunho de Jerônimo e de outros Padres.
– Papa Bento XV, Spiritus Paraclitus, Parágrafo 20.
Diversos estudiosos veem uma ruptura firme com essa tradição concernente à inspiração e interpretação bíblica com o pontificado do Papa Pio XII. Em 1943, ele publicou sua encíclica dedicada à Sagrada Escritura, Divino Afflante Spiritu, que estudiosos modernos frequentemente leem como uma afirmação, quase acrítica, dos métodos modernos de interpretação bíblica e como uma ruptura limpa com Leão XIII.
Embora seja verdade que Divino Afflante Spiritu seja mais positiva em relação à crítica histórica moderna do que documentos magisteriais anteriores10, ela também está em continuidade com eles. Divino Afflante Spiritu comemorou o quinquagésimo aniversário de Providentissimus Deus e reafirmou os pontos de Leão sobre inspiração e interpretação bíblica.
No primeiro parágrafo de sua encíclica, Pio XII observou:
nos tempos mais recentes, quando se viu mais particularmente ameaçada a origem divina dos Livros Sagrados e a sua reta interpretação, também a Igreja tratou de as defender e proteger com maior empenho e diligência.
– Papa Pio XII, Divino Afflante Spiritu, Parágrafo 1.
Ele começou sua retrospectiva histórica com o Concílio de Trento e assim mostrou as raízes protestantes de algumas das tendências mais céticas dos racionalistas que se seguiram nos séculos posteriores. Reafirmou vigorosamente a insistência de Leão na completa ausência de erros na Escritura, descrevendo-a como a “imunidade de todo erro”. Continuou a dar importância à tradição interpretativa dos Padres da Igreja e à necessidade do Magistério como guia segura de interpretação. Enfatizou a importância da atenção ao sentido literal, mas também recomendou o recurso ao sentido espiritual.
Enquanto no tempo de Leão o principal problema era a intrusão da crítica bíblica racionalista no mundo católico, especialmente nos seminários, o problema que Pio XII teve de enfrentar vinha mais da parte daqueles que desejavam recuar para um uso exclusivo da exegese patrística, ignorando as investigações históricas mais recentes.
Em 1964, a Comissão Bíblica Pontifícia publicou o que seria seu último documento enquanto parte formal do Magistério (o Papa São Paulo VI a retiraria desse status em 1971, transformando-a em comissão consultiva), Sancta Mater Ecclesia, que afirmou a confiabilidade histórica dos Evangelhos.
Essas tendências, de Leão XIII até Sancta Mater Ecclesia, ajudam a compor o pano de fundo que levou o Concílio Vaticano II, o qual reuniu os vários movimentos de renovação: bíblico, patrístico e litúrgico, em curso ao longo da primeira metade do século XX.
A Constituição Dogmática do Vaticano II sobre a Revelação Divina

Quando o Papa São João XXIII convocou o Concílio Vaticano II (CVII), um dos principais temas previstos para discussão era a Escritura. Os primeiros rascunhos do documento sobre a revelação divina foram considerados excessivamente apologéticos, baseados em um esquema neoescolástico tradicional, e os Padres conciliares, em vez de serem defensivos, queriam que os documentos do Concílio mostrassem a beleza e o atrativo do ensinamento católico.
Na forma final do documento, conhecido como Dei Verbum, o CVII afirmou o seguinte sobre a inspiração divina:
Visto que tudo o que os autores inspirados ou hagiógrafos afirmaram deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, a verdade dos livros da Escritura — que Deus quis consignar nas Letras Sagradas para nossa salvação11 — deve ser ensinada e professada firmemente, fielmente e sem erro.
– Dei Verbum, 11. Tradução da CNBB.
Em vez de usar o termo “inerrância”, que aparecia em rascunhos anteriores, Dei Verbum empregou três advérbios para qualificar o verbo “ensinar”: assim, a Escritura ensina a verdade “firmemente, fielmente e sem erro”. A verdade que a Escritura ensina é aquela “que Deus quis consignar nas Letras Sagradas” e o motivo pelo qual Deus colocou essa verdade na Escritura é “para nossa salvação”.
Infelizmente, logo após o Concílio, muitos biblistas católicos começaram a afirmar, como já haviam feito alguns modernistas no início do século XX, que a inerrância cobria apenas as questões necessárias para à salvação. Isso, porém, se opunha às intenções dos Padres conciliares.
Enquanto a expressão “para nossa salvação” claramente explica o propósito da verdade escriturística, muitos passaram a vê-la como uma restrição quanto ao tipo ou à extensão da verdade abrangida pela inspiração divina. O texto de Dei Verbum não sustenta tal leitura.
Sobre a interpretação bíblica, Dei Verbum fez questão de enfatizar que os autores humanos da Escritura são verdadeiros autores. Por essa questão, é necessário levar em conta os gêneros e formas literárias, os costumes culturais da época, a história e as línguas. Ao mesmo tempo, Dei Verbum afirmou que Deus também é o autor da Escritura, eis o mistério da dupla autoria:
As realidades contidas e existentes nas palavras da Sagrada Escritura, divinamente revelada, foram postas por escrito sob a inspiração do Espírito Santo. Os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento, com todas as suas partes, são tidos por santos e canônicos pela santa Mãe Igreja segundo a fé apostólica, porque, redigidos por inspiração do Espírito Santo (Jo 20,31; 2Tm 3,16; 2Pd 1,19-21; 3,15-16), têm Deus por autor e como tais têm sido transmitidos pela própria Igreja. Na redação dos livros sagrados, Deus escolheu homens e serviu-se deles, fazendo uso de suas faculdades e meios, de modo que, agindo neles e por eles, transmitissem por escrito, como verdadeiros autores, tudo aquilo e somente aquilo que Deus queria.
– Dei Verbum, 11.
A Dei Verbum declara: “a Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada no mesmo Espírito com a qual foi escrita“. Por isso, é preciso prestar atenção ao “conteúdo e unidade de toda a Escritura“, à “tradição viva de toda a Igreja” e à “harmonia que existe entre os elementos da fé” (Ibid, 12). Esse ensinamento de Dei Verbum representa uma rica síntese do ensino oficial católico sobre a verdade, a inspiração e a interpretação da Sagrada Escritura que se desenvolveu ao longo dos séculos.
Catecismo da Igreja Católica
O Catecismo da Igreja Católica (CIC) foi publicado em 1992 e pode, em certo sentido, ser entendido como um “Catecismo do Concílio Vaticano II”, já que serve como um compêndio de todo o ensinamento católico lido à luz do Vaticano II, que ele cita com frequência. Organizado pelo Cardeal Joseph Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, e editado pelo Cardeal Christoph Schönborn, ele também representa o magistério de São João Paulo II, sob cuja liderança foi redigido e aprovado.
Uma das partes mais importantes do CIC é a que trata da Escritura (CIC 80-141). A maior parte dessa seção é um resumo eloquente de Dei Verbum, mas os parágrafos 115-119 vão além da Dei Verbum ao oferecer uma síntese maravilhosa da exegese patrística e medieval tradicional, à semelhança do que fez Santo Tomás de Aquino, com foco nos dois sentidos primários da Escritura: o literal e o espiritual (cf. Introdução à Sagrada Escritura e seus 4 Sentidos Principais).
Talvez o aspecto mais significativo seja a forma como o Catecismo inteiro utiliza a Escritura. Em muitos casos, o CIC se apoia nas própria palavras da Escritura como se fossem suas, tal como faziam os Padres da Igreja. Isso é um modelo para todos os católicos. Os fiéis precisam que as palavras da Escritura se tornem suas próprias palavras, que aprendam a ver a si mesmos nas páginas da Escritura e a ver o mundo e os acontecimentos ao seu redor à luz da Escritura. É assim que viviam os primeiros cristãos, e é isso que o Catecismo ensina os fiéis a fazer hoje.
Verbum Domini, de Bento XVI
Em 2008, o Papa Bento XVI anunciou um Sínodo sobre a Palavra de Deus para avaliar os desenvolvimentos, desde o Concílio Vaticano II, na compreensão da Sagrada Escritura pela Igreja. Em 2010, o Papa publicou sua exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini, que representa o tratamento mais completo do Magistério, e o mais significativo desde o Vaticano II, sobre a Escritura.
Logo no início de Verbum Domini encontramos uma frase belíssima sobre o mistério da dupla autoria e da inspiração da Escritura:
Também aqui se pode sugerir uma analogia: assim como o Verbo de Deus Se fez carne por obra do Espírito Santo no seio da Virgem Maria, assim também a Sagrada Escritura nasce do seio da Igreja por obra do mesmo Espírito. A Sagrada Escritura é «Palavra de Deus enquanto foi escrita por inspiração do Espírito de Deus». [citando Dei Verbum, 9] Deste modo se reconhece toda a importância do autor humano que escreveu os textos inspirados e, ao mesmo tempo, do próprio Deus como verdadeiro autor.
– Verbum Domini, 19.
Como os documentos magisteriais anteriores, afirma a importância das metodologias histórico-críticas (32), mas ressalta talvez de modo mais claro do que nunca como a Igreja e sua liturgia constituem o contexto principal para a interpretação bíblica (por exemplo, 29). Como em documento precedentes, o Papa Bento XVI menciona a necessidade do Magistério como guia para a interpretação correta (33), bem como a relevância dos sentidos literal e espiritual (37). Talvez o aspecto mais significativo, porém, seja o reconhecimento de que as normas de Dei Verbum ainda não foram plenamente assimiladas pelos exegetas católicos em geral (34).
Verbum Domini também ressalta, com bastante força, os riscos e perigos de certas abordagens secularizadas da crítica histórica e a importância de iniciar a interpretação a partir de uma posição de fé e confiança (35), em que fé e razão atuem juntas (36). Bento inclui ainda uma seção maravilhosa sobre os santos como modelos de intérpretes da Escritura, na forma como encarnaram a Palavra em suas próprias vidas (48-49).
Conclusão

Ao percorrermos ao longo da história da Igreja contemplando a verdade de Deus sobre a Escritura, quanto à sua inspiração e interpretação, chegamos a várias conclusões. O primeiro ponto fundamental é que a Escritura tem tanto Deus quanto os escritores humanos como seus autores. Deus é o autor principal, que inspirou os escritos sagrados, movendo-os a escrever, protegendo-os do erro e inspirando também o conteúdo do que escreveram, de modo que registrassem apenas aquilo que Deus quis confiar à Escritura para nossa salvação.
Assim, podemos confiar na Escritura. Isso é importante porque ela tem uma exigência sobre nossas vidas. A Escritura existe para nos conduzir ao céu, onde poderemos adorar a Deus por toda a eternidade, para o que fomos criados.
Isso requer que interpretamos corretamente a Escritura12. Devemos ler a Bíblia como um livro escrito por autores humanos; isso significa que precisamos aprender sobre as línguas em que foi escrita, o período histórico e a geografia em que surgiu, os costumes culturais, etc. Mas também precisamos ler os livros da Escritura como procedentes de Deus, seu autor divino, o que significa aprender a ler toda a Bíblia como uma narrativa unificada da história da salvação.
Os dogmas revelados da Igreja servem como guias que ajudam a esclarecer o sentido da Escritura. Por fim, temos a orientação segura do Magistério, conduzido pelo Espírito, para iluminar nosso caminho. Assim, recursos como os documentos dos concílios ecumênicos (como o Vaticano II) e o Catecismo da Igreja Católica nos oferecem diretrizes confiáveis em nossa busca para compreender melhor a Sagrada Página.
Texto base escrito por Jeffrey L. Morrow, Ph.D.
Traduzido por Ayran Gomes.
Amplamente alterado por Gabriel Ramos.
Categoria Introdução às Sagradas Escrituras
Observação: Esse texto não é uma tradução do original, mas foi modificado e não pode ser utilizado como uma citação do autor original. Quando for apenas uma tradução, ficará claro que nada do texto foi alterado.
- Também temos as cartas de São Tiago Menor e de São Judas Tadeu. Fora esses, os Apóstolos que não registraram por escrito nem sequer uma gota de tinta são: Santo André, São Tiago Maior, São Filipe, São Bartolomeu (Natanel), São Tomé, São Simão (o Zelota), Judas Iscariotes (naturalmente) e seu substituto São Matias. Todos pregaram oralmente e foram assassinados por isso. Existem alguns Apócrifos atribuídos a eles, mas nada digno de menção. ↩︎
- O termo cânon como uma lista fechada e normativa de livros não existia até meados do século IV, quando Santo Atanásio finalmente o utiliza. Além disso, o significado do termo variava de pessoa para pessoa (o que causa muito anacronismo hoje). O termo foi ganhando uma uniformidade de sentido, como o nosso atual, tardiamente. Já sobre as listas, eram opiniões pessoais de pessoas individuais e nenhuma batia perfeitamente uma com a outra e nenhuma com o cânon bíblico judaico e protestante no sentido moderno da palavra. O cânon chegou ao desenvolvimento final no século IV e início do século V, com os Concílios de Roma (382 d.C.), Hipona (393 d.C.) e Cartago (397 e 419 d.C.), esse mesmo cânon permaneceu inalterado até o Concílio de Florença (1441 d.C.), onde foi reafirmado e, em Trento (1546 d.C.), foi dado o Anátema para quem negasse o mesmo cânon (foi necessário por causa da “Reforma” Protestante removendo os Deuterocanônicos, que sempre estiveram dentro do cânon cristão e, anteriormente, na LXX). ↩︎
- Debatível, assista o vídeo para contexto: Concílio de Roma (382) e o Cânon Católico | Resposta a Banzoli feito por Lucas Pacitti. ↩︎
- “Ao imperador Tito Élio Adriano Antonino Pio César Augusto, ao seu filho Veríssimo, filósofo, e a Lúcio, filho natural do César, filósofo e filho adotivo de Pio, amante do saber, ao sacro Senado e a todo o povo romano. Em prol dos homens de qualquer raça que são injustamente odiados e caluniados, eu, Justino, um deles, filho de Prisco, que o foi de Báquio, natural de Flávia Neápolis na Síria Palestina, compus este discurso e esta súplica” introdução de São Justino em Apologia I, Capítulo 1. ↩︎
- Esses quatro sentidos já foram explicados no texto de Introdução à Sagrada Escritura. ↩︎
- Essas regras estão amplamente ensinadas no escrito A Doutrina Cristã. Recomendo fortemente a leitura completa desta obra. Os três primeiros livros desse escrito ensinam a arte da interpretação bíblica, enquanto o quarto livro ensina a ensinar os outros no que aprendeu e meditou. ↩︎
- Existem diversas estimativas sobre quantas denominações protestantes e evangélicas existem hoje, algumas dizendo que existem ao menos 50.000; trata-se, porém, de um número essencialmente incalculável (não concordo com a tentativa de realizar tal cálculo, e muitas das metodologias empregadas são altamente questionáveis). Isso se deve ao fato de que cada indivíduo passa a operar como árbitro último da interpretação da Escritura, isto é, tornando-se o próprio Magistério, e com isso rompendo com a comunidade de origem e prosseguindo por um processo contínuo de fragmentação, “pulando de galho em galho”, até encontrar um grupo que concorde com a própria interpretação ou, em não raros casos, fundando uma nova denominação. Tal dinâmica atingiu um nível tão extremo que deu origem ao fenômeno dos chamados “desigrejados”, que se colocam ativamente contra o modo comunitário do viver cristão atestado biblicamente, simplesmente por não se ajustarem plenamente a lugar algum. No catolicismo, ao contrário, não se molda a realidade às ideias individuais; moldam-se as ideias à realidade objetiva da Revelação, ensinada infalivelmente pelo Magistério instituído por Cristo, o que impede esse tipo de dissolução eclesial. ↩︎
- Algo que não existe no catolicismo, em quase dois milênios de existência, a Igreja trabalhou para aceitar absolutamente todo o material revelado em harmonia, lidando com as contradições e não aceitando as oposições criadas pelos hereges: não é Fé e Obras somente; a fé sem obras é morta e as obras sem fé são vazias, sem valor sobrenatural algum, mas aqui não é o momento para abordar o tema. Um conteúdo interessante sobre Fé e Obras é encontrado aqui. ↩︎
- Entende-se por Tradição o conteúdo da Revelação originado em Cristo e ensinado pelos Apóstolos, não integralmente consignado por escrito nas Escrituras, mas preservado e comunicado publicamente na Igreja mediante a sucessão apostólica. Tal Tradição distingue-se de costumes meramente humanos e de correntes esotéricas ou gnósticas, não sendo secreta, mas historicamente atestada e documentada desde os primeiros séculos, inclusive no próprio Novo Testamento (cf. 1Cor 11,2; 2Ts 2,15; 2Ts 3,6; 2Tm 1,13–14). ↩︎
- Verifique os parágrafos 18 e 19 aqui. ↩︎
- A cláusula conciliar “para nossa salvação” exprime a finalidade da Revelação divina, não uma restrição material da verdade inspirada. O Magistério ensina explicitamente que a inspiração divina se estende a todas as partes da Sagrada Escritura, sendo ilícito limitar a inerrância a determinados conteúdos ou finalidades. ↩︎
- A Sagrada Escritura, enquanto texto inspirado, não possui consciência nem capacidade de autointerpretação; a interpretação é sempre um ato de sujeitos racionais. Por isso, desde a Igreja primitiva, a compreensão correta da Escritura foi confiada à comunidade apostólica e à sucessão de seus mestres. Já no século II, Ireneu de Lyon afirma que o verdadeiro sentido das Escrituras é preservado na Igreja, por meio da tradição recebida dos Apóstolos (Contra as Heresias III, 4,1). Do mesmo modo, Agostinho de Hipona ensina que não se deve interpretar a Escritura isoladamente, mas segundo a regra da fé recebida da Igreja (A Doutrina Cristã III, 2,2). A própria Escritura reconhece esse princípio ao advertir que “nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular” (cf. 2Pd 1,20). Assim, a eficácia salvífica e formativa da Escritura pressupõe uma interpretação correta, conforme exemplificado no uso distorcido das Escrituras pelo Diabo contra Cristo (cf. Mt 4). ↩︎
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